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Dediquei pelo menos 12 anos da minha vida a estudar intensamente tudo sobre feminismo e direitos das mulheres que passasse na minha frente. Se me diziam que tal autora ou texto era importante, eu dava um jeito de compreender o contexto, descobrir o conteúdo ou ter acesso à obra. Estudei bastante, sem preconceito. Acabei aprendendo muito em diversas áreas (sociologia, antropologia, filosofia, direito, história, psicologia). Aos poucos, desenvolvi uma habilidade bem interessante de diferenciar os conceitos em cada área ao invés de ignorar ou desprezar essa variação. Por exemplo, o que a ciência política entende como patriarcado é bem diferente da antropologia. E tudo bem.

Um efeito colateral dessa habilidades foi ter me afastado de sectarismo e militância. Simplesmente não tinha mais como dialogar ou apontar outros conceitos ou caminhos. Foi assustador explicar conceitos jurídicos para militantes sem formação jurídica e ser insultada porque não estavam dispostas a conhecer os conceitos de outra área de conhecimento. Foi triste constatar o desprezo com a história das sufragistas e com qualquer outra perspectiva feminista que não estivesse alinhada com a militância tida como “correta”.

Ao longo dessa trajetória de estudos e tentativa de diálogos acabei construindo um blog e um grupo de discussão. Participei de diversas iniciativas para mulheres, e incentivei outras tantas. Entrei no doutorado pretendendo estudar o impacto da educação feminina na conquista da igualdade de direitos. Fiz doutorado-sanduíche na Itália, e lá compreendi a importância das sufragistas e da profissionalização feminina para a conquista de direitos. Terminei o doutorado com uma tese sobre as táticas as sufragistas brasileiras.

E terminei o doutorado seguindo outro caminho. Tornei-me empresária. Criei um curso online, estou produzindo outros cursos, desenvolvo mentoria acadêmica. Contribuo, lentamente, para mudar o caminho de outras pessoas.

Dentre essas pessoas, várias são mulheres que querem ser professoras universitárias e advogadas, mas precisam de orientação e apoio. Às vezes não sabem lidar com o machismo, ou precisam aprimorar a formação acadêmica, ou são as primeiras da família a fazer faculdade e desconhecem as regras não-escritas do mundo acadêmico. Com elas eu utilizo tanto minha experiência profissional quanto os estudos sobre feminismo, e é fascinante ver como o caminho delas vai se tornando mais claro. Elas identificam as prioridades e obstáculos, aprendem a se libertar dos estereótipos de gênero e ignorar o “mulher não pode ou não tem querer”. O meu esforço de anos dialogando e aprendendo feminismo não foi em vão.

Em todo Dia Internacional da Mulher os assuntos predominantes são sempre o que falta, o que não funciona, o que está errado. São problemas que existem, sim, e precisam ser consertados, mas eu não tenho mais como lidar com tanta negatividade e violência. Deixo essa parte a quem está disposta a enfrentar esses temas.

Prefiro construir um caminho diferente. Estou incentivando independência financeira, sucesso profissional, organização e planejamento de vida. Um dia de cada vez. Sem estereótipos. Não comecei isso agora: ao compilar artigos antigos para o post do 8 de março no blog “Direitos da Mulher“, percebi que já vinha trilhando este caminho. A diferença é que agora posso me dedicar integralmente a ele.

Portanto, no Dia Internacional da Mulher, repito o que sempre digo aos meus alunos, mas que é mais dramático para as alunas e mentorandas: não existe um conceito único válido para todas as áreas do conhecimento, não existe só um jeito de fazer as coisas, ambição e teimosia são atitudes normais, mulher pode e deve desejar e agir para ser mais do que é. Existem vários caminhos. Encontre o mais adequado pra você.