Como nos últimos dias tem havido uma comparação entre Femen e Marcha das Vadias, acho importante ressaltar aqui as diferenças, mostrando como a Marcha das Vadias é descentralizada, não-hierarquizada, aberta à diversidade, marcada pela construção coletiva e troca de experiências. Para isso, vou contar um pouco sobre a Marcha das Vadias em Belo Horizonte, que ocorreu no final de maio deste ano. Estamos longe de um esquema verticalizado, com lideranças. A Marcha é o resultado de um processo de discussão que agrega inúmeros movimentos sociais, e não um evento fechado em si mesmo.

Chamadas para a 2ª Marcha das Vadias – BH. Clique para ver o álbum completo

Chamadas para a 2ª Marcha das Vadias – BH. Clique para ver o álbum completo

E o topless – que tem sido apontado pela mídia como um ponto em comum entre Femen e Marcha das Vadias – funciona de forma completamente diferente: na Marcha das Vadias o topless não é obrigatório. Exatamente por ser uma manifestação pela liberdade, não há porque obrigar alguém a se vestir/desvestir de determinada forma. Seja por fazer parte da performance em si, ou seja pelo clima de descontração, há o ambiente propício para as participantes que desejarem poderem se despir. E até por questionarmos a falta de diversidade dos corpos femininos na mídia há espaço para que se percebam que todos os corpos são lindos.

Obviamente a cobertura midiática foca no topless (porque rende cliques, caracterizando o jornalismo punheteiro), deixando em segundo plano as mensagens políticas e a discussão sobre direitos e liberdade das mulheres. Há o risco de as pessoas interpretarem mal a Marcha, mas é uma boa forma de entrarem em contato com o feminismo. Levando em consideração o aumento de participantes da Marcha entre o ano passado e este ano, e a ampliação das manifestações em favor da liberdade e da desconstrução de relações e papeis de gênero, nota-se que esse sistema, por mais que seja deturpado pela mídia, tem funcionado como espaço de aproximação e introdução aos feminismos.

Tivemos o empenho de três facilitadoras que foram fundamentais pra gerenciar todo o processo: Debora Vieira, Renata Lima e Adriana Torres. Porém não houve preocupação em centralizar entrevistas e contatos para a mídia em apenas uma pessoa, nem nomear lideranças ou porta-vozes. Todas participaram, cada pessoa de acordo com sua disponibilidade e possibilidade. Quem estava disponível, participava. Quem podia contribuir com textos, dinheiro, trabalho, sugestões, contatos, fotos, mobilização na internet, encaminhamentos burocráticos, fazia cada uma dessas coisas. E contribuições sempre foram bem-vindas.

Diversas crianças participaram da Marcha das Vadias deste ano e foi lindo vê-las se divertindo. Porém, depois, com as fotos publicadas vieram muitas críticas à participação de crianças. A maioria das críticas surpreendeu pelo tom moralista (“é uma pouca vergonha”, “crianças não deveriam ver mulheres de peito de fora”, e por aí segue o festival de conservadorismo). E aí fica a questão: as crianças entendem a Marcha das Vadias?

“Sim, uma compreensão típica de uma criança de três anos, mas existe entendimento e mais importante ainda, existe empatia, sentimento de pertencimento. Quando ela segurou um cartaz dizendo ‘meu corpinho, minhas regrinhas, desde já e sempre’ vestida de pirata o significado era simples: aquela criança tem liberdade para escolher, para fantasiar, sem amarras tão pesadas como as impostas às meninas nos dias de hoje. Ou seja, ela vivencia essa regra. A presença de outras crianças na marcha, inclusive, ressalta isso: está surgindo uma nova geração que vem diariamente, sistematicamente, sendo educada para pensar fora de um padrão que é opressor tanto para mulheres como para homens.” Ludmila Pizarro, mãe da Teresa (3 anos)

Este vídeo é um resuminho da Marcha, mostrando a subida da Rua da Bahia rumo à Praça da Liberdade:

http://youtu.be/gz2DPYLuF-Q

Por isso marchamos, ganhamos as ruas de Belo Horizonte com sorrisos nos rostos, corpos rabiscados, fantasias, cartazes, batuques e gritos que traduzem o espírito da manifestação e esperamos despertar questionamentos acerca de todas as formas de preconceito e opressão. Sabemos que o termo vadia, uma ironia, e o formato da Marcha nem sempre serão entendidos e muitas vezes serão criticados. O objetivo aqui é justamente repensar valores e comportamentos, resignificar o que é ser vadia e o que é ser mulher no mundo atual. Não podemos simplesmente repetir velhos padrões que nos são ensinados de forma enlatada com o objetivo de nos tirarem a liberdade e de nos manterem em “nosso devido lugar” e não no lugar em que nós queremos e escolhemos ocupar.[Mira Ribeiro]

Cida Vieira na 2ª Marcha das Vadias de BH – créditos da foto: Túlio Vianna

Cida Vieira na 2ª Marcha das Vadias de BH – créditos da foto: Túlio Vianna

Fizemos questão de abrir espaço para outros grupos, para outras manifestações, já que nossa proposta é unir, e nunca segregar. Foi assim que vários grupos se manifestaram e criaram chamadas próprias para a Marcha das Vadias. E foi assim que nos aproximamos da Aprosmig (Associação de Prostitutas de Minas Gerais).

Foi na Aprosmig que entendemos o quanto a expressão “nem santa nem puta”, bastante utilizada em manifestações feministas, soa ofensiva para as prostitutas. E foi no espaço da Aprosmig (gentilmente cedido pela Cida Vieira, diretora da Associação das Prostitutas) que realizamos a oficina de cartazes para a Marcha. Embora parte do movimento feminista seja refratária à aproximação com profissionais do sexo, prevaleceu entre nós a opinião de que não há motivo para segregar, muito pelo contrário: a troca de experiências e a oficina foram bastante enriquecedoras para tod@s nós.

Participar da Marcha das Vadias é uma experiência libertária! É uma luta histórica, um momento de dizer não, ainda não há igualdade de gênero e exigimos o fim da violência, a liberdade e o respeito a todas as mulheres. Que possamos fazer nossas escolhas sem sermos julgadas, que a sociedade e religiões não nos limitem, não tentem controlar nossos corpos nem nos digam como devemos nos comportar para sermos aceitas em um modelo patriarcal construído com base em interesses econômicos e sociais de séculos passados.[Paula Coradi]

Os comentários não traduzem toda a fragmentação e complexidade da experiência que é participar de uma Marcha das Vadias (por favor, contribuam contando suas experiências nos comentários). Porém, transmitem parte dos princípios que estão sendo abraçados pela Marcha: mobilização não-hierarquizada, liberdade das mulheres, liberdade para as mulheres, fim das opressões de gênero. E a participação maciça de pessoas jovens mostrou que há interesse em continuar a luta e há muito ainda pelo que lutar para que as fronteiras de gênero sejam diluídas e que o preconceito, em todas as suas formas, diminua. Espero que as discussões que estão sendo gestadas agora contribuam para que as próximas Marchas sejam mais problematizadoras e inclusivas, especialmente em relação ao transfeminismo.

Clique para ver o álbum completo: Beijos de batom

Clique para ver o álbum completo: Beijos de batom

O álbum de fotos que se tornou o meu favorito é o dos beijos de batom [abram o link e vejam o álbum completo, que é lindo!] A mensagem que veio com ele causa arrepios, e eu acho que pode ser ampliada: somos pessoas, queremos liberdade e não queremos preconceito.

E nós, feministas, mandamos um beijo de batom, pr’essa gente sem cor, sem amor, sem respeito. Pr’esse mundo violento, machista e egoísta..

Queremos que nosso gesto alcance o mais alto dos topos, o mais duro dos corações, o mais frio dos sentimentos..

É só um gesto de carinho pedindo respeito..
Somos mulheres e não queremos preconceito!

Marcha das Vadias – BH – 26/05/2012
De Laís Rodrigues e Luana Costa para o mundo.

Este post foi editado por Cynthia Semíramis, com contribuições de Ludmila Pizarro, Paula Coradi e Mira Ribeiro.
As fotos do destaque do post e de Cida Vieira são da autoria de Túlio Vianna em 26 de maio de 2012. Os links das imagens foram todos direcionados para o álbum de cada uma delas no facebook, a fim de divulgar mais fotos da manifestação.

Publicado no Blogueiras Feministas em 21 de agosto de 2012